Currículo

quarta-feira, 23 de março de 2011

Alimentação alternativa

Em 1993, a Dra. Clara  Brandão, pediatra e nutróloga, apresentou o trabalho das alternativas alimentares no 23º Congresso Brasileiro de Pediatria,na Bahia, que foi premiado como o melhor.

Ela conta:

A alimentação alternativa, criada para combater a desnutrição, inclui alimentos de alto valor nutritivo, de custo muito baixo, de paladar adaptado à região e preparo rápido. O carro chefe desta alimentação é o principio da multimistura - da variedade - que aproveita diversos alimentos que geralmente são desprezados. São os farelos (de arroz e de trigo), as folhas verde-escuras (de batata-doce, mandioca, taioba, beldroega, etc.), a casca de ovo e as sementes (de abóbora, melancia, gergelim, jaca, caju, melão, etc.).

Esse método pode ser introduzido em qualquer lar e para qualquer idade, porque não gasta muito e não muda o hábito da família, apenas enriquece os pratos que a família está acostumada a usar em casa. O combate à arteriosclerose, apendicite, diabete, prisão-de-ventre, hemorróidas, varizes e câncer de intestino são benefícios adicionais da alimentação enriquecida.

Nessa cozinha, nada se perde, tudo é aproveitado. Casca, talos, folhas e sementes. Normalmente, o caminho destas sobras é o lixo. Pouca gente sabe que, assim, são desperdiçadas toneladas de vitaminas da melhor qualidade. Folhas de cenoura e de couve-flor, talos da couve, do espinafre, do brócolis e até a casca da banana refogada são armas muito importantes contra a desnutrição.

Trocamos, na medida do possível, a farinha de mandioca pelo fubá, porque 1 kg de fubá substitui, no mínimo, 4 kg de farinha de mandioca, tal o seu valor nutritivo. Além disso, o milho tem o ciclo muito mais rápido do que a mandioca para ser colhido. É muito mais fácil colher o milho do que a mandioca e ele não estraga tanto o solo.

Com o uso do farelo, nos casos de criança desnutrida, volta a cor dos cabelos, que param de cair. Desaparecem as lesões na pele e o edema. Desaparecem as lesões do couro cabeludo, das pernas e do tronco. Muitas vezes, a criança pode até recuperar a altura. Diminui a anemia, a coriza persistente, o impetigo, acaba a diarréia. É nítida a diferença no berçário: as crianças começam a ganhar peso e diminuem as infecções.

Com o uso do farelo, a mãe desnutrida consegue gerar e amamentar um filho com peso normal.

A mãe rejeita o farelo porque considera comida de porco. Então, dizemos: "A senhora não come jerimum, aipim, batata-doce e milho? O porco também come essas coisas. Se comemos aquilo que o porco come e comemos o porco, também podemos comer o farelo."

O farelo não deve ser doado. Acostuma o povo a ganhar e depois, quando precisa comprar, deixa de usar. Começando errado, depois fica difícil acertar.

Quando chegamos a Minas, usar o farelo foi uma dificuldade. A Cooperativa só vendia em sacos de 30 kg. Então fui lá, conversei com o dono para conhecê-lo. Na segunda vez, levei um pedaço de bolo para ele. Na terceira vez, levei uma senhora que já tinha sido beneficiada pelo farelo. Ai, na quarta, vez conversei com ele. "Que tal se o senhor dividisse esse farelo pra gente?". De vez em quando, é preciso ir e conversar, até virar um hábito. Ele começou a vender o farelo em sacos de 1 kg e, sempre que chegava farelo novo, ele já separava para nós.

Em Salvador, conversamos com o gerente do moinho. Ele disse que só podia vender para empresas. Além disso, o moinho ficava muito fora de mão. De repente ele teve uma idéia - as padarias! Toda padaria que compra no moinho, se for incentivada, vai comprar o farelo de trigo e distribuir no bairro. Vejam que solução boa. Nem sempre temos uma solução imediata. Precisamos conversar para descobrir. Temos que formar o mercado consumidor.

O mesmo acontece com os "matos". Conseguimos conversar com várias senhoras para pedirem serralha, que é um mato, na feira. O feirante disse que não traz porque ninguém compra. Se começar a ter procura, ele traz. Um mês depois já tinha serralha para vender na feira.

Temos que utilizar aquilo que existe na região, aquilo que cresce como praga. E podemos plantar em frente de casa, porque ninguém rouba. Plantas que não dependem de estrume, água, terra boa e de cuidados. Temos como exemplo a vinagreira, a taioba, a abóbora, etc. E por que não trocar a batata inglesa pela batata-doce, pelo cará, pelo inhame? A batatinha tem muito produto químico.

Conseguimos melhorar a saúde das crianças utilizando essas alternativas também na mamadeira. Ao invés de Maizena®, Neston®, Mucilon®, o mingau pode ser feito com fubá torrado ou farinha de mandioca, sempre acrescentando uma colherinha de farelo. Outro ponto importante é saber que o leite, para a criança com mais de um ano, pode ser perfeitamente substituído pelos vários cereais existentes na região, como o milho e o arroz, ambos acrescidos do farelo. Teremos crianças e famílias mais saudáveis, com medidas simples e acessíveis: 

Aleitamento materno até 6 meses de idade; 
Controle de peso das crianças pelo cartão Caminho da Saúde; 
Aproveitamento de todos os alimentos que temos à nossa disposição ou que podemos cultivar no quintal. 
A alimentação alternativa está sendo comprovada na prática, em todos os estados brasileiros, tanto em nível comunitário quanto em hospitais, creches e postos de saúde.

A TAPS elaborou um data-show como homenagem à pediatra e nutróloga Dra. Clara T. Brandão. Sem dúvida nenhuma, é ela a pessoa que mais tem se dedicado à reabilitação nutricional das crianças e da população carente da nossa terra. 




É um princípio básico de nutrição:
A Qualidade é dada pela Variedade e não apenas pela carne, ovo, peixe, frango.
Não há alimentos fortes ou fracos, mas complementares.
Exemplo: A combinação de arroz, feijão e carne fica mais completa com salada de alface, salsa, coentro, hortelã, cebola, couve, grãos de gergelim temperados com sal iodado, limão e óleo.
Pode-se enriquecer a alimentação do dia-a-dia com uma farinha composta de:
70% de farelo (arroz e ou trigo) tostado,
15% de pó de folhas (mandioca, batata-doce, etc.),
15% de pó de sementes (gergelim, abóbora, linhaça, girassol).
Se tiver pó de cascas de ovo, a mistura fica assim:
70% de farelo tostado,
10% de pó de folhas verde-escuras,
10% de pó de sementes,
10% de pó de casca de ovo.
Usar uma colher de sopa por pessoa, por dia, dividida nas três refeições. Serve para todas as idades. É um alimento, não um medicamento. É a multimistura básica. Contém um concentrado de minerais e vitaminas. Funciona como o sal: um pouco todos os dias. Repõe nutrientes fundamentais como o zinco, magnésio, ferro, vitamina A, vitaminas do complexo B e outras. Também reduz a absorção de metais nocivos como o mercúrio, chumbo, alumínio. Milagre? Não. Estamos repondo o que a natureza fez e o que foi retirado pela industrialização. "Bicho não come o que não presta". Ou seja, um arroz branquinho, mas fraco, não é atacado por insetos e roedores, como é atacado o arroz integral, e se conserva por muito mais tempo. O comerciante vende mais e ganha mais.
PS: O farelo de trigo contém glúten.

Como muitas pessoas perguntam onde encontrar a Multimistura já pronta, informamos que pode ser procurada:
- na Pastoral da Criança de sua cidade;
- em Mercados Públicos (no de Porto Alegre tem em várias bancas);
- em lojas ou entrepostos de produtos naturais ou orgânicos;
- em mercados;
- em ONGs que trabalham com Alimentação Alternativa;
- em associações comunitárias, tais como, por exemplo, no DF, a Cooperunião em São Sebastião e no Centro Comunitário da Criança da Ceilândia.

É importante que estejam discriminados os ingredientes e que contenha:
- 70% de farelos;
- 15% de pó de sementes; e
- 15% de pó de folhas verde-escuras, sendo a principal a da mandioca.

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